Comentário
A força da renovação se faz presente na vida e nas atividades humanas. Vibração e trabalho são diretrizes básicas. Da terra magnânima novos frutos surgem a cada dia. E o homem, pobre mortal, revive na família como um prolongamento da sua existência levando ao infinito “sua eterna aflição, seu destino maldito.”
Em palavras vibrantes e convincentes o mestre Edward Leão firma conceitos e toca a nossa alma e o nosso espírito no poema “Renovação”.
JGL
RENOVAÇÃO
Em tudo há vibração de vida e de trabalho;
Quer no choque brutal da bigorna e do malho,
no estrídulo ranger das limas e das serras,
no contínuo rodar do arado sobre as terras,
quer na mão que semeia ou na que colhe os frutos,
nos pés que galgam sós os alcantis abruptos,
nos que pisam de leve as lajes dos mosteiros,
nos que caminham nus por entre os espinheiros,
nos braços que erguem pás e movem as charruas,
nos que, pelo dever, vibram espadas nuas.
Em toda parte há força, há vibração, há vida,
músculos em ação, energia perdida,
seiva que se consome e sempre se renova,
nessa existência velha e eternamente nova.
Vidas em transição, em curso, em movimento . . .
Tomba da haste uma flor, nasce um novo rebento,
e o fruto que apodrece inútil sobre a terra
é somente que brota e que outra vida encerra.
Nesse eterno vaivém, nessas alternativas,
Baloiçam gerações - humanas forças vivas -
que se gastam na mó – ciclópica da luta.
Pobres entes em choque, em trágica disputa
pela conservação egoísta do ser :
Homens que são mortais mas que hão de reviver
na prole que prolonga e leva ao infinito
sua eterna aflição, seu destino maldito.
Sábado, 28 de Junho de 2008
Sábado, 21 de Junho de 2008
Tributo á memória do mestre Edward Leão
Comentário
Em “Procelas” o poeta bosqueja a sensação de alguém arremetido a esmo, em desvario, dançando ao som de uma flauta bárbara, comparando-o a um náufrago, subjugado pelo mar colérico e selvagem.
O destino de todo ser humano tem muito de comum ao quadro que, com requinte, está explícito nas palavras do mestre Edward Leão.
JGL
PROCELAS
O mar bramindo, o mar uivando, o mar
colérico a espumar como um demente
arroja o náufrago ora para a frente
ora para o outro lado a praguejar.
É um felino titânico a gozar
o suplício da vítima impotente:
quer espremer-lhe a vida lentamente,
aniquilando-a, aos poucos, devagar . . .
Também o meu destino é como o oceano:
brinca comigo num delírio insano,
com crueldades torvas de felino.
Arremessado a esmo, em desvarios,
eu danço nesta vida aos sons bravios
da flauta bárbara do meu destino.
Em “Procelas” o poeta bosqueja a sensação de alguém arremetido a esmo, em desvario, dançando ao som de uma flauta bárbara, comparando-o a um náufrago, subjugado pelo mar colérico e selvagem.
O destino de todo ser humano tem muito de comum ao quadro que, com requinte, está explícito nas palavras do mestre Edward Leão.
JGL
PROCELAS
O mar bramindo, o mar uivando, o mar
colérico a espumar como um demente
arroja o náufrago ora para a frente
ora para o outro lado a praguejar.
É um felino titânico a gozar
o suplício da vítima impotente:
quer espremer-lhe a vida lentamente,
aniquilando-a, aos poucos, devagar . . .
Também o meu destino é como o oceano:
brinca comigo num delírio insano,
com crueldades torvas de felino.
Arremessado a esmo, em desvarios,
eu danço nesta vida aos sons bravios
da flauta bárbara do meu destino.
Sexta-feira, 13 de Junho de 2008
Tributo á memória do mestre Edward Leão
Comentário
O cinqüentenário sempre mexe com o emocional das pessoas.
Começo do fim, dizem os mais céticos.
Com o avanço da ciência, outra é a perspectiva.
O cinqüentenário pode ser considerado o marco de uma fase das mais produtivas e realizadoras do homem; com fundamentos sólidos calcados na experiência e conhecimentos acumulados.
Provavelmente, neste século, o estigma dos cinqüenta ceda espaço para os cem nas preocupações existenciais humanas.
O mestre Edward Leão em dois sonetos - “Crepúsculo” e “Velho Poeta” - se ocupou do assunto, com a maestria habitual .
JGL
CREPÚSCULO
Aproxima-se o meu cinqüentenário,
como um imperativo da existência:
Traz na boca o sorriso de clemência
de um patriarca valetudinário.
Durante a vida, em cada aniversário,
desde a fronteira azul da adolescência,
guardei moedas de reminiscência
do coração no humilde relicário.
E permutando os sonhos por lembranças
fui-me despindo, aos poucos, de esperanças,
sabendo envelhecer como uma planta.
Porque o segredo da felicidade
é transformar o sol da mocidade
em noite de luar tranqüila e santa.
/// ## ///
VELHO POETA
Alma de luz banhada intensamente,
boiando à flor das águas do destino,
o velho poeta é quase um inocente
na ingenuidade eterna de menino.
E, novo Homero ancião, cego e divino,
tange as cordas da lira e a toda gente
leva o clamor de um canto peregrino
- Velha cigarra sempre adolescente –
Na sucessão de albores e negrume,
de sombras e auroras boreais,
seu coração é um frasco de perfumes,
sempre aberto a espalhar na imensidade
os aromas eternos, imortais,
- Velho incensório azul da Humanidade -
O cinqüentenário sempre mexe com o emocional das pessoas.
Começo do fim, dizem os mais céticos.
Com o avanço da ciência, outra é a perspectiva.
O cinqüentenário pode ser considerado o marco de uma fase das mais produtivas e realizadoras do homem; com fundamentos sólidos calcados na experiência e conhecimentos acumulados.
Provavelmente, neste século, o estigma dos cinqüenta ceda espaço para os cem nas preocupações existenciais humanas.
O mestre Edward Leão em dois sonetos - “Crepúsculo” e “Velho Poeta” - se ocupou do assunto, com a maestria habitual .
JGL
CREPÚSCULO
Aproxima-se o meu cinqüentenário,
como um imperativo da existência:
Traz na boca o sorriso de clemência
de um patriarca valetudinário.
Durante a vida, em cada aniversário,
desde a fronteira azul da adolescência,
guardei moedas de reminiscência
do coração no humilde relicário.
E permutando os sonhos por lembranças
fui-me despindo, aos poucos, de esperanças,
sabendo envelhecer como uma planta.
Porque o segredo da felicidade
é transformar o sol da mocidade
em noite de luar tranqüila e santa.
/// ## ///
VELHO POETA
Alma de luz banhada intensamente,
boiando à flor das águas do destino,
o velho poeta é quase um inocente
na ingenuidade eterna de menino.
E, novo Homero ancião, cego e divino,
tange as cordas da lira e a toda gente
leva o clamor de um canto peregrino
- Velha cigarra sempre adolescente –
Na sucessão de albores e negrume,
de sombras e auroras boreais,
seu coração é um frasco de perfumes,
sempre aberto a espalhar na imensidade
os aromas eternos, imortais,
- Velho incensório azul da Humanidade -
Sexta-feira, 6 de Junho de 2008
Tributo á memória do mestre Edward Leão
Comentário
Os poetas de todas as nações, raças, idade e crenças religiosas, vivem harmoniosamente em um mundo muito especial, cheio de magia e belezas mil - O MUNDO DOS SONHOS E DAS FANTASIAS. Cantam a Natureza, falam de alegrias e das tristezas, rejubilam com a felicidade, sofrem com as fatalidades.
Viajando por este mundo imaginário deparamos o poeta maior de Raul Soares - Edward Leão. Deixemo-nos invadir pelo seu estilo elegante, pela riqueza das imagens, pela linguagem pura e a profundidade de suas análises e conceitos, frutos da sua cultura invejável. A poesia de Edward Leão retrata gente, costumes, anseios, angústias, paixões, esperanças . . .
Um tema árido e incomum - FEIO -, motivou a criação de um soneto de estrofes bem concatenadas e estruturadas.
JGL
FEIO
Feio, hediondo - Quasímodo (1) ou Vulcano (2)
corpo mal feito, exóticas feições,
hei-lo a integrar o aglomerado humano,
embora incluído entre as aberrações . . .
Passa a vida a enganar-se e, nesse engano,
tem delírios de estranhas proporções :
Julga-se um mago, um semi – deus indiano
e se desdobra em transfigurações . . .
Vive exilado em meio à humanidade -
constrangido em complexos de humildade,
vai bebendo a amargura em alta dose.
Inveja a larva que há de ser falena :
- Bem mais feliz é aquela irmã pequena
Que espera a glória da metamorfose . . .
NOTAS
(1) Quasímodo - Indivíduo deformado; mostrengo. Personagem de Notre – Dame de Paris (O corcunda de Notre – Dame), de Victor Hugo. É o sineiro da catedral de Notre – Dame que, segundo uma concepção cara ao escritor, oculta, sob o aspecto grotesco de suas deformações físicas, a mais sublime delicadeza de sentimento.
(2) Vulcano, o deus do fogo e do metal dos Romanos, filho de Júpiter e de Juno, marido de Vênus. Quando nasceu, era tão feio que a mãe o precipitou do Olimpo (nome de várias montanhas da Grécia antiga); o infeliz caiu na ilha de Lemnos (ilha grega do Arquipélago, hoje Lemno) e ficou coxo. Estabeleceu debaixo do Etna (vulcão da Sicília) forjas, onde trabalhava com os Ciclopes (segundo a Fábula gigantes monstruosos, com um só olho no meio da testa. A história supõe que esse nome designa os primeiros habitantes da Sicília).
Os poetas de todas as nações, raças, idade e crenças religiosas, vivem harmoniosamente em um mundo muito especial, cheio de magia e belezas mil - O MUNDO DOS SONHOS E DAS FANTASIAS. Cantam a Natureza, falam de alegrias e das tristezas, rejubilam com a felicidade, sofrem com as fatalidades.
Viajando por este mundo imaginário deparamos o poeta maior de Raul Soares - Edward Leão. Deixemo-nos invadir pelo seu estilo elegante, pela riqueza das imagens, pela linguagem pura e a profundidade de suas análises e conceitos, frutos da sua cultura invejável. A poesia de Edward Leão retrata gente, costumes, anseios, angústias, paixões, esperanças . . .
Um tema árido e incomum - FEIO -, motivou a criação de um soneto de estrofes bem concatenadas e estruturadas.
JGL
FEIO
Feio, hediondo - Quasímodo (1) ou Vulcano (2)
corpo mal feito, exóticas feições,
hei-lo a integrar o aglomerado humano,
embora incluído entre as aberrações . . .
Passa a vida a enganar-se e, nesse engano,
tem delírios de estranhas proporções :
Julga-se um mago, um semi – deus indiano
e se desdobra em transfigurações . . .
Vive exilado em meio à humanidade -
constrangido em complexos de humildade,
vai bebendo a amargura em alta dose.
Inveja a larva que há de ser falena :
- Bem mais feliz é aquela irmã pequena
Que espera a glória da metamorfose . . .
NOTAS
(1) Quasímodo - Indivíduo deformado; mostrengo. Personagem de Notre – Dame de Paris (O corcunda de Notre – Dame), de Victor Hugo. É o sineiro da catedral de Notre – Dame que, segundo uma concepção cara ao escritor, oculta, sob o aspecto grotesco de suas deformações físicas, a mais sublime delicadeza de sentimento.
(2) Vulcano, o deus do fogo e do metal dos Romanos, filho de Júpiter e de Juno, marido de Vênus. Quando nasceu, era tão feio que a mãe o precipitou do Olimpo (nome de várias montanhas da Grécia antiga); o infeliz caiu na ilha de Lemnos (ilha grega do Arquipélago, hoje Lemno) e ficou coxo. Estabeleceu debaixo do Etna (vulcão da Sicília) forjas, onde trabalhava com os Ciclopes (segundo a Fábula gigantes monstruosos, com um só olho no meio da testa. A história supõe que esse nome designa os primeiros habitantes da Sicília).
Sexta-feira, 30 de Maio de 2008
Tributo á memória do mestre Edward Leão
Comentário
O soneto é uma composição de origem italiana com fórmulas definidas de apresentação. O último verso deve encerrar a essência dos pensamentos, numa expressão perfeita, sendo considerado a chave de ouro da composição.
O mestre Edward Leão foi no gênero um competente e inspirado poeta.
Atendendo à solicitação de admiradores lançou na primeira página de álbuns os sonetos “ÀTRIO” e “PÓRTICO” .
JGL
ÁTRIO
Um livro em branco é um coração de criança
sem imagens, sem cor e sem tormentos.
- terra virgem à espera de rebentos -
- mundo povoado apenas de esperança -
Álbum . . . solo feraz onde se lança
A sementeira dos encantamentos
Que desabrocham ao sabor dos ventos
nas corolas doiradas da lembrança . . .
E cada folha branca em que se escreve
perde a alvura puríssima da neve
e toma a cor de cada inspiração . . .
Ó tu, que vais abrir este livrinho,
abre-o, mas com cuidado e com carinho:
Olha que estás abrindo um coração!
- # # -
PÓRTICO
Neste livro de versos escolhidos
pelo gosto sutil de uma rainha
talvez pareça grande audácia minha
lançar meus versos tão descoloridos.
Mas as entradas dos jardins floridos
nem sempre têm o encanto que convinha . . .
ao contemplá-las nunca se advinha
o esplendor dos tesouros escondidos . . .
E embora aqui devesse estar um poema
- arco de luz numa fachada nobre -
de fronte real esplêndido diadema -
só pus estas estrofes. Mas, sou franco,
e penso que esta página tão pobre
melhor seria que estivesse em branco . . .
O soneto é uma composição de origem italiana com fórmulas definidas de apresentação. O último verso deve encerrar a essência dos pensamentos, numa expressão perfeita, sendo considerado a chave de ouro da composição.
O mestre Edward Leão foi no gênero um competente e inspirado poeta.
Atendendo à solicitação de admiradores lançou na primeira página de álbuns os sonetos “ÀTRIO” e “PÓRTICO” .
JGL
ÁTRIO
Um livro em branco é um coração de criança
sem imagens, sem cor e sem tormentos.
- terra virgem à espera de rebentos -
- mundo povoado apenas de esperança -
Álbum . . . solo feraz onde se lança
A sementeira dos encantamentos
Que desabrocham ao sabor dos ventos
nas corolas doiradas da lembrança . . .
E cada folha branca em que se escreve
perde a alvura puríssima da neve
e toma a cor de cada inspiração . . .
Ó tu, que vais abrir este livrinho,
abre-o, mas com cuidado e com carinho:
Olha que estás abrindo um coração!
- # # -
PÓRTICO
Neste livro de versos escolhidos
pelo gosto sutil de uma rainha
talvez pareça grande audácia minha
lançar meus versos tão descoloridos.
Mas as entradas dos jardins floridos
nem sempre têm o encanto que convinha . . .
ao contemplá-las nunca se advinha
o esplendor dos tesouros escondidos . . .
E embora aqui devesse estar um poema
- arco de luz numa fachada nobre -
de fronte real esplêndido diadema -
só pus estas estrofes. Mas, sou franco,
e penso que esta página tão pobre
melhor seria que estivesse em branco . . .
Sexta-feira, 23 de Maio de 2008
Tributo á memória do mestre Edward Leão
A explosão da Natureza - presente na primavera - a estação mais bela do ano, é cantada em prosa e verso. Em o poema “A PRIMAVERA” o poeta confronta a “humana mocidade” e o despertar da Natureza para concluir pela harmonia com “hinos de glória à Vida e à Mocidade”. É uma composição com muitas estrofes, ao estilo das Escolas Provençal e Palaciana ou Espanhola.
JGL
A PRIMAVERA
Numa noite de festas e esplendores,
em turbilhões de luzes e de cores,
uma jovem de exótica beleza
viu surgir de uma alfombra a Natureza,
vestida de estrelas e de rosas,
que, vindo de regiões misteriosas,
como uma nova e esplêndida Belkis,
por um capricho, aquela noite, quis
mostrar ao mundo a sua majestade
e encher de inveja a humana mocidade,
que se dizia irmã da primavera,
eternizando uma infantil quimera.
E a deusa augusta, soberana e altiva,
diante da moça palpitante e viva,
assumindo uma olímpica atitude,
falou : - mulher, a tua juventude
é claridade efêmera e fugaz.
É um castelo de cartas; se desfaz,
transformando-se em tristes desenganos
Ao sopro vil dos dias e dos anos.
A Primavera volta, e as flores são
milagre eterno de renovação.
A tua mocidade vai-se embora
e dura sob o espaço de uma hora.
Estremeceram frondes nas áleas.
Ouviram-se zumbidos nas colmeias.
Encheram-se os espaços de chilreios
da Natureza aos trêmulos anseios.
Diante da deusa a jovem se levanta,
dando a palavra ao coração que canta.
Despindo a timidez, fala à Rainha:
- Sou moça e bela e a Natureza é minha.
Tenho ilusões que são o meu tesouro.
Tenho sonhos que valem todo o ouro,
toda a riqueza imensa do Universo.
Tenho a poesia na alma e, em cada verso,
palpitam mundos, resplandecem astros.
Piso de leve a terra e nos meus rastros
brotam flores, cintilam colibris . . .
eu não te invejo, ó deusa, eu sou feliz!
Se a vida não é mais que uma quimera,
a mocidade é mais que a primavera.
Diluíram-se no espaço acordes de harpas.
Vibraram harmonias nas escarpas.
E o som e a luz, tremendo de emoção,
mandaram que as estrelas, na amplidão,
Cantassem, em soberba majestade,
hinos de glória à ida e à Mocidade.
JGL
A PRIMAVERA
Numa noite de festas e esplendores,
em turbilhões de luzes e de cores,
uma jovem de exótica beleza
viu surgir de uma alfombra a Natureza,
vestida de estrelas e de rosas,
que, vindo de regiões misteriosas,
como uma nova e esplêndida Belkis,
por um capricho, aquela noite, quis
mostrar ao mundo a sua majestade
e encher de inveja a humana mocidade,
que se dizia irmã da primavera,
eternizando uma infantil quimera.
E a deusa augusta, soberana e altiva,
diante da moça palpitante e viva,
assumindo uma olímpica atitude,
falou : - mulher, a tua juventude
é claridade efêmera e fugaz.
É um castelo de cartas; se desfaz,
transformando-se em tristes desenganos
Ao sopro vil dos dias e dos anos.
A Primavera volta, e as flores são
milagre eterno de renovação.
A tua mocidade vai-se embora
e dura sob o espaço de uma hora.
Estremeceram frondes nas áleas.
Ouviram-se zumbidos nas colmeias.
Encheram-se os espaços de chilreios
da Natureza aos trêmulos anseios.
Diante da deusa a jovem se levanta,
dando a palavra ao coração que canta.
Despindo a timidez, fala à Rainha:
- Sou moça e bela e a Natureza é minha.
Tenho ilusões que são o meu tesouro.
Tenho sonhos que valem todo o ouro,
toda a riqueza imensa do Universo.
Tenho a poesia na alma e, em cada verso,
palpitam mundos, resplandecem astros.
Piso de leve a terra e nos meus rastros
brotam flores, cintilam colibris . . .
eu não te invejo, ó deusa, eu sou feliz!
Se a vida não é mais que uma quimera,
a mocidade é mais que a primavera.
Diluíram-se no espaço acordes de harpas.
Vibraram harmonias nas escarpas.
E o som e a luz, tremendo de emoção,
mandaram que as estrelas, na amplidão,
Cantassem, em soberba majestade,
hinos de glória à ida e à Mocidade.
Quinta-feira, 15 de Maio de 2008
Tributo á memória do mestre Edward Leão
Comentário
Na primeira página do livro “Alma Errante” o mestre homenageou Mário Mendes Campos, J. Cunha Lages e Theodosio de Aquino, “meus mestres e meus amigos”.
Dedicou alguns sonetos a diletos amigos retribuindo gentilezas. “Idílio Doirado”, ao escritor Edgard de Vasconcelos; “A Orquídea”, ao médico Dr. Carlos Berla e “Sono”, ao poeta Gonçalves da Costa.
JGL
IDÍLIO DOIRADO
Ela era minha e tive-a nos meus braços,
chorei com ela as dores do meu peito. . .
cantamos em uníssono perfeito
como se presos em eternos laços.
Hinos de glória ecoavam nos espaços.
E o meu orgulho esplêndido de eleito
compunha estrofes no conchego estreito
dessa Musa ideal de estranhos traços . . .
Ela – a beleza eterna eterna, imperecível -
livre das contingências, intangível,
segue na rota de ouro das auroras . . .
E eu, que assistí a própria derrocada,
vivo lembrando essa ilusão doirada
no turbilhão dos dias e das horas.
##
A ORQUÍDEA
Planta selvagem, rústica, esquisita,
vivendo à custa de árvores adultas,
com raízes aéreas, insepultas,
no dorso do galho que se agita . . .
- Longe do mundo, alheia às turbamultas,
prefere a condição de parasita
na solidão olímpica, infinita,
das florestas inóspitas, incultas . . . .
No reino virgem da floresta rude
abre-se a flor da orquídea rara e bela,
magnífica na forma e na atitude.
E do mar verde esplêndida sereia
- um pouco de mulher, algo de estrela –
deslumbra os olhos do Homem, que ela odeia.
- ## -
O SONO
O sono é fuga, exílio delicioso
espécie de balanço veneziano
todo coberto de um etéreo pano
feito de brisas, leve e vaporoso . . .
A alma liberta do casulo humano
vence abismos no espaço misterioso,
cavalga o próprio sol, corcel fogoso,
colhe estrelas no fundo do oceano.
Fração de morte, fim sem sepultura,
- interlúdio de mágica ventura -
em que o homem se eleva, e sem que o note,
rompe as cadeias deste cativeiro,
como um pagem armado cavaleiro
ou Sancho promovido a D. Quixote
Na primeira página do livro “Alma Errante” o mestre homenageou Mário Mendes Campos, J. Cunha Lages e Theodosio de Aquino, “meus mestres e meus amigos”.
Dedicou alguns sonetos a diletos amigos retribuindo gentilezas. “Idílio Doirado”, ao escritor Edgard de Vasconcelos; “A Orquídea”, ao médico Dr. Carlos Berla e “Sono”, ao poeta Gonçalves da Costa.
JGL
IDÍLIO DOIRADO
Ela era minha e tive-a nos meus braços,
chorei com ela as dores do meu peito. . .
cantamos em uníssono perfeito
como se presos em eternos laços.
Hinos de glória ecoavam nos espaços.
E o meu orgulho esplêndido de eleito
compunha estrofes no conchego estreito
dessa Musa ideal de estranhos traços . . .
Ela – a beleza eterna eterna, imperecível -
livre das contingências, intangível,
segue na rota de ouro das auroras . . .
E eu, que assistí a própria derrocada,
vivo lembrando essa ilusão doirada
no turbilhão dos dias e das horas.
##
A ORQUÍDEA
Planta selvagem, rústica, esquisita,
vivendo à custa de árvores adultas,
com raízes aéreas, insepultas,
no dorso do galho que se agita . . .
- Longe do mundo, alheia às turbamultas,
prefere a condição de parasita
na solidão olímpica, infinita,
das florestas inóspitas, incultas . . . .
No reino virgem da floresta rude
abre-se a flor da orquídea rara e bela,
magnífica na forma e na atitude.
E do mar verde esplêndida sereia
- um pouco de mulher, algo de estrela –
deslumbra os olhos do Homem, que ela odeia.
- ## -
O SONO
O sono é fuga, exílio delicioso
espécie de balanço veneziano
todo coberto de um etéreo pano
feito de brisas, leve e vaporoso . . .
A alma liberta do casulo humano
vence abismos no espaço misterioso,
cavalga o próprio sol, corcel fogoso,
colhe estrelas no fundo do oceano.
Fração de morte, fim sem sepultura,
- interlúdio de mágica ventura -
em que o homem se eleva, e sem que o note,
rompe as cadeias deste cativeiro,
como um pagem armado cavaleiro
ou Sancho promovido a D. Quixote
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